quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

textão sobre a vida na cozinha

Tirando uns freelas e uns bolos que fiz, tem um mês e pouco que estou trabalhando, de fato, em uma cozinha. Alguns que me conhecem ou me acompanham, sabem que eu tenho 36 anos e, até agosto do ano passado, tinha um emprego confortável e estável há cerca de dez anos. Aconteceu que resolvi estudar gastronomia e que resolvi não querer mais aquele emprego que já não me fazia feliz (apesar do salário ser mais que justo, de poder emendar todos os feriados e viajar, de ter tempo pra ler um monte de artigos e estudar, de ser do lado de casa, enfim...). 
O meu primeiro dia num restaurante, com várias pessoas trabalhando, e uma porção de regras, não foi das melhores estreias. Acho que quase esfaqueei o braço de uma colega, andando com a faca na mão de maneira perigosa e passei o dia tão atrapalhada que parecia nunca ter fritado um ovo. Jurei que não iam me querer ver nunca mais. 
Quando eu comecei a faculdade, li um texto que nunca saiu da minha cabeça, e agora estou tirando a prova real pra ver se o que estava escrito ali era verdade. Claro que eu me cortei muito na primeira semana e ainda estou me cortando (e depois espremendo limão e colocando sal nos cortes). Também queimei a língua e uns dedos. Minhas pernas, nos primeiros dias, pareciam que iam paralisar de tanta dor. Na primeira semana já estreei trabalhando mais de 50 horas em pé, belezura hein? Lavei tanta salada como nunca em toda a minha vida e me molhei toda de água suja tentando desentupir um ralo de pia horroroso, bem mais de uma vez. Lavei louça pra cacete, mais salada, mais salada, mais salada. O restaurante é um vegano em São Paulo, que serve pratos veganos, sem glúten e algumas coisas raw (crú). Uma proposta bacana no quesito aprendizado com certeza (em muitos aspectos aliás).
No inicio eu estava trabalhando de terça a domingo, mais de oito horas por dia, quando chegava em casa, a noite, estava pegando potes de comida na geladeira e comendo gelado mesmo, fazendo carinho num cachorro com uma mão, numa gata com o pé, desejando poder tomar banho sentada, tentando manter alguma dignidade com muito esforço. Sorte minha ter a Carla, que logo percebeu que a coisa estava feia, e começou a me fazer alguns mimos como comidinhas gostosas e aconchegantes, que ela advinha quando estou precisando.
Teve um domingo que fui trabalhar chorando durante o caminho, imediatamente pensei: o que fiz com a minha vida? Surtei pra valer. A Carla que sempre me apoiou muito, ficou desolada. Mas eu decidi que deveria continuar tentando. Pois bem, eu havia lido esse texto e os professores também avisaram, a faixa salarial da categoria é super baixa, não tem nada de glamouroso e é muito cansativo. Eu pensei por meses e, ainda assim, decidi que queria tentar, então lá continuei.
Bom, depois de uns dias trabalhando lá, surgiu a chance de ficar trabalhando numa outra cozinha deles, onde é feita a produção de toda a confeitaria do restaurante e mais umas coisas como coxinhas e quiches. Nesse local, o trabalho é um pouco mais tranquilo, por ser mais organizado e com menos pressão, mas, não menos trabalhoso. São coisas delicadas e demoradas de fazer, também dá pra ficar bem cansada. Mas tem uma coisa boa: é só de segunda à sexta. E assim estou lá, ainda me adaptando e tentando superar várias coisas, um pouco mais animada.
Semana passada li um post de um jovem chef, num grupo de empregos, na área de gastronomia, que dizia algo assim: "estou saindo desse grupo por causa dos salários ridículos oferecidos aqui, enquanto não nos recusarmos a trabalhar por tão pouco, nunca vamos melhorar o salário da nossa categoria". Logo depois disso, que ficou martelando na minha cabeça, veio meu primeiro pagamento. E ele já está quase acabado em poucos dias. De novo fiquei desanimada. Realmente é preciso muito amor pra poder trabalhar numa cozinha, pra oferecer alimento carregado de energias boas pras pessoas, porque alimentar é algo que vai além de usar técnicas perfeitas. Claro que eu estou tentando dar o meu melhor a cada dia, mas há dias em que eu sinto que não tenho muito a oferecer. Não posso dizer que estou feliz, mas também não sei se foi uma escolha errada. Sei que não está nada fácil. Além da questão salarial, como em todos os lugares, você tem que ser sociável com as pessoas e ter uma certa inteligência emocional, lidar com incoerências e coisas que não concorda e não pode fazer muita coisa pra mudar.
A verdade é que tudo me foi avisado, toda essa mudança foi muito bem pensada. Só não poderia saber mesmo era o que eu ia sentir nessa hora. Você não tem como saber o que vai sentir, só passando pelo perrengue mesmo.
Bom, hora de dormir que a cozinha começa cedo e o busão passa cedo e a vida passa cedo. E hoje não vou colocar receitinha, foi só esse texto confuso, meio mal escrito. 

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